Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Marcos Resende Poemas

Marcos Resende Poemas

Carta

Índice Poema ◦ Índice Geral

 

Odiópolis, 28 de novembro de 1967

 

Caro irmão, amigo e sangue na longínqua Fraterlândia: saúde, alegria e paz te desejo nesta carta. De que saí daí, eu não pude te escrever. Minha luta é muito intensa pra poder sobreviver. Porém, não fiques com medo, por aqui vai tudo bem. Aqui é tudo bonito, há ruas intermináveis e edifícios elevados que quase vão dar no céu.

Caro irmão, amigo e sangue na longínqua Fraterlândia: aqui é tudo bonito, tudo é bom e grandioso. Por aqui roda dinheiro que é um nunca se acabar. Estou contando isto tudo pra veres como estou bem. Tudo é belo e de concreto. Tudo, não! Ruas de asfalto, há residências de pedra e automóveis de metal.

O povo? Como é bondoso! São pessoas muito sérias, feitas de ferro e de prata. Seu coração é de chumbo. Vestem costumes de estanho. Como é belo o seu portar!

Meu irmão, amigo e sangue, na longínqua Fraterlândia: desde que mudei daí, eu não pude te escrever. Meu trabalho é muito rude e me toma muito tempo. Porém, não fiques com medo, tudo aqui é muito bom. Meu trabalho não te disse, vou contar como é que é: trabalho com os forasteiros pro cortês povo daqui. Só os de fora trabalham, os daqui não têm mais tempo. São pessoas de alta estirpe.

Trabalhamos numa usina que supre toda a cidade de importantes alimentos: vaidade, orgulho, avareza, luxúria, cobiça e inveja. Tu não achas formidável? Como é agradável ser útil!

Na cidade, só concreto. É belo tanto cimento! Só não sinto ver o céu, encoberto por fumaça, tão azul em Fraterlândia. Não te esqueças de abraçar toda cidade em meu nome.

Caro irmão, amigo e sangue na longínqua Fraterlândia: vida longa, amor e paz te desejo nesta carta. Desde que saí daí, eu não soube o que é o amor. O concreto me devora e o ferro me fere na alma. Ah! Eu tenho-te um recado de que quase me esquecia: amanhâ, ao pôr do sol, devo deixar de existir. Fui condenado a ser morto por um tiro de fuzil. A sentença foi justíssima e eu me sinto com remorsos do crime que cometi. Amei de paixão intensa uma moça bela e loura, colega minha da usina. Declarei-lhe meu amor e juntamo-nos num coito. Fomos vistos e julgados. Um Banqueiro e um Sacerdote exigiram nossa morte em nome da Sociedade. Caro irmão, não fiques triste! É gente muito importante feita de ferro e de prata. Seu coração é de chumbo e seus dedos, de granito.

Caro irmão, amigo e sangue, na longínqua Fraterlândia: adeus e viva feliz. Amanhã, ao pôr-do-sol, devo deixar de existir. Porém, não fiques com medo, por aqui vai tudo bem. Aqui é tudo bonito, há ruas intermináveis e edifícios elevados que quase vão dar no céu. Seu irmão. 

São Paulo 02 Novembro 1967 

Índice Poema ◦ Índice Geral

Poemas

  •  
  • Pesquisar

     

    Marcos Resende